sonhadora
sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010
quarta-feira, 13 de janeiro de 2010
COMO E RUIM...Mulher vive com prisão de ventre. Laxantes representam para nós o que revista de sacanagem representa para meninos púberes e berebentos: o único método de aliviar o que a natureza se incumbiu de produzir. A questão é tão grave que, ultimamente, a televisão foi invadida por propagandas de cereais, iogurtes e gororobas que prometem deixar nossa vida no reservado menos traumática. E, vou te contar, intestino feminino é um inferno: saiu de casa, trava. É só comer uma guacamolezinha e... trava. Viajou com o namorado: trava. E daí a pança cresce, nos sentimos umas Dona Juras antes da metamorfose, entupimos e o mau humor se instala. Mas o pior não é ficar com barriga de habitante da Somália, o pior é aguentar os homens perguntando a razão da nossa cara fechada (e, geralmente, amarela). Sabe a razão? Cocô.
E vou ser sincera: acho que a culpa pelo funcionamento precário do nosso aparelho digestivo é dos homens. Toda deles. Fomos criadas para jamais soltar pum, ir ao banheiro como se fosse algo mais secreto que os bastidores do PT, deixar cheiro de lavanda depois da nossa passagem e espirrar sem produzir catarro. E eles acreditaram que somos assim! Aos olhos deles, somos uma espécie transgênica de Barbies que não secretam. Repare só: basta a menor menção de uma dor de barriga nossa para que os olhos masculinos se arregalem, como se alertassem a si mesmos, em choque: "Meu Deus, ela caga!". Sim, queridos, nós fazemos cocô. Nós temos catota de nariz, suamos e babamos quando dormimos. Tudo que entra no nosso corpo, sai, igualzinho acontece a vocês. Mas enquanto vocês foram incentivados a fazer campeonato de arroto e descobrir quem peidava mais alto, nós tínhamos que inventar um método do xixi não fazer barulho quando batesse na água.
Chega de repressão intestinal! Porque meninas também têm direito aos sagrados e sublimes momentos no vaso sanitário.

UFA!!!QUE PESADELO...
Preciso fazer ginástica. Desesperadamente em busca da barriguinha sarada perdida (quem vê pensa que algum dia eu tive uma...). Hoje sonhei que minhas coxas pareciam pula-pula de criança: qualquer brisa as faziam tremelicar mais que gelatina mole. No sonho, minha barriga também caia por cima do cós da calça, soterrando o botão. Acordei em pânico, suada, e fui direto pro espelho do banheiro e só fiquei tranquila quando vi que meus braços não parecem bexigas murchas. Ufa.
Mas a questão é a seguinte: preciso fazer ginástica e odeio. Odeio. Não é aquele ódio reservado às partidas de futebol de quarta (e quem vivem azarando meus jantares), por exemplo. Não. É ódio daqueles que se tem de ex-mulher ou calça 38. Forte, encorpado, poderoso. Academia é meu maior pesadelo. Fazer esteira me faz sentir um hamnster (sei lá como escreve isso). Ver aqueles caras com peito de chester e perna de galinha puxando ferro me dá ganas de rir, não tem jeito: não consigo achar sexy homem que tem o pescoço do diâmetro de uma boca de bueiro. Daí eu saio da academia, depois de ter pago o plano semestral, e só volto dois anos depois, com a renovada e ingênua disposição "agora vai!". Vai o catso, que vai. Sei que nem chuchu refogado é menos atraente do que aula de step. Nem Fernet é tão horroroso quanto a cara do povo se matando no spinning.
Parece que o negócio vai ser ficar amiga da gravidade e torcer pra medicina estética se aperfeiçoar porque, se depender do meu ânimo, minha bunda vai mesmo tomar a consistência de um flan aguado.
SEMPRE CAMINHANDO NÃO POSSO PARAR...
O momento em que o desânimo perante a confusão do novo suplanta a vontade de sair da fossa é a hora propícia para fazermos as maiores asneiras da vida: reencontrar ex-namorado(a) enquanto o sentimento ainda não deu o último estertor é cagada na certa.
Relacionamentos naufragados são como domingos de chuva: sabemos que não servem pra nada, mas insistimos que podem ser úteis pra alguma coisa. E aí, depois de reembarcar na canoa furada, arrumamos mais argumentos para sustentar as lamentações sobre o quão infelizes somos nós e abjetos, os outros. Mas esquecemos que fomos (re)conquistados porque teimamos em ter fé em coisas que não dependem de fé, acreditamos que o que era ruim até um segundo atrás poderia ter se tornado perfeito e reluzente. Fomos seduzidos pelo que quisemos ver e não pelo que estava, de fato, na nossa frente; nos agoniamos por não ter respostas pras nossas dúvidas e projetamos todas as soluções na "presença curadora" do outro.
Mas elas não vêm. E a mágoa volta. Dobrada. Chorosos, putos da vida, pedimos ao céu uma explicação razoável para o bis do sofrimento. Tentamos nos consolar em ombros de amigos, livros de auto-ajuda, sexo fácil, mas a explicação teima em não vir. Não adianta procurar debaixo do sofá, porque ela está estampada na sua testa: você sofre porque é uma besta.
A experiência vivida com aquela pessoa "magnânima" nos deu avisos suficientes de que a relação, se fosse um sapato, não era do tamanho do nosso pé: ou vai nos dar calo (de novo) ou cair no meio da rua. Vimos com nossos próprios olhos todos os problemas; os gritos das brigas arranharam a garganta e mesmo assim lá estamos nós insistindo em dar murro em ponta de faca. Tentando desesperadamente acreditar que dois monólogos podem fazer um diálogo - feliz e agradável, além de tudo. Mas a única coisa que conseguimos são mais calos, ainda mais doídos. O sapo é sapo, e só, enterre as ilusões. Não estou dizendo que existam pessoas ruins. De forma alguma. Apenas ruins pra você.
O fato é que, por comodismo e paúra, nos acostumamos até com a infelicidade de um relacionamento capenga. O temor diante do novo nos priva da grande alegria de descobrir que o mundo é maior que a nossa dor-de-cotovelo, que o cheiro ou os traços do(a) ex. Esse temor da rejeição, da exposição, da falta de controle perante o que não conhecemos é o que de mais castrador podemos fazer a nós mesmos. "Tá ruim, mas todo mundo tem problemas, não é?", como se isso fosse desculpa. Quer dizer que você vai comer cocô só porque 1 bilhão de moscas comem? Se os outros são sentimentalmente miseráveis, azar o deles! Não cabe a você solucionar a vida alheia.
Ansiar por um momento que nunca se repetirá é apenas o outro lado de ansiar por um momento que passou pra sempre. O passado só é lindo porque já foi. Não adianta tentar reproduzir as cores dele no presente porque o tom nunca será o mesmo. Nem você. Nem o outro. Nem o que os cerca. Esse presente (re)fantasiado, por melhor que seja, nunca se igualará às suas expectativas ou lembranças. E acabará, fatalmente, em decepção.
Quer saber? Levante a âncora. Porque quem anda olhando pra trás acaba tropeçando - e, pior, perdendo toda a paisagem.
O momento em que o desânimo perante a confusão do novo suplanta a vontade de sair da fossa é a hora propícia para fazermos as maiores asneiras da vida: reencontrar ex-namorado(a) enquanto o sentimento ainda não deu o último estertor é cagada na certa.Relacionamentos naufragados são como domingos de chuva: sabemos que não servem pra nada, mas insistimos que podem ser úteis pra alguma coisa. E aí, depois de reembarcar na canoa furada, arrumamos mais argumentos para sustentar as lamentações sobre o quão infelizes somos nós e abjetos, os outros. Mas esquecemos que fomos (re)conquistados porque teimamos em ter fé em coisas que não dependem de fé, acreditamos que o que era ruim até um segundo atrás poderia ter se tornado perfeito e reluzente. Fomos seduzidos pelo que quisemos ver e não pelo que estava, de fato, na nossa frente; nos agoniamos por não ter respostas pras nossas dúvidas e projetamos todas as soluções na "presença curadora" do outro.
Mas elas não vêm. E a mágoa volta. Dobrada. Chorosos, putos da vida, pedimos ao céu uma explicação razoável para o bis do sofrimento. Tentamos nos consolar em ombros de amigos, livros de auto-ajuda, sexo fácil, mas a explicação teima em não vir. Não adianta procurar debaixo do sofá, porque ela está estampada na sua testa: você sofre porque é uma besta.
A experiência vivida com aquela pessoa "magnânima" nos deu avisos suficientes de que a relação, se fosse um sapato, não era do tamanho do nosso pé: ou vai nos dar calo (de novo) ou cair no meio da rua. Vimos com nossos próprios olhos todos os problemas; os gritos das brigas arranharam a garganta e mesmo assim lá estamos nós insistindo em dar murro em ponta de faca. Tentando desesperadamente acreditar que dois monólogos podem fazer um diálogo - feliz e agradável, além de tudo. Mas a única coisa que conseguimos são mais calos, ainda mais doídos. O sapo é sapo, e só, enterre as ilusões. Não estou dizendo que existam pessoas ruins. De forma alguma. Apenas ruins pra você.
O fato é que, por comodismo e paúra, nos acostumamos até com a infelicidade de um relacionamento capenga. O temor diante do novo nos priva da grande alegria de descobrir que o mundo é maior que a nossa dor-de-cotovelo, que o cheiro ou os traços do(a) ex. Esse temor da rejeição, da exposição, da falta de controle perante o que não conhecemos é o que de mais castrador podemos fazer a nós mesmos. "Tá ruim, mas todo mundo tem problemas, não é?", como se isso fosse desculpa. Quer dizer que você vai comer cocô só porque 1 bilhão de moscas comem? Se os outros são sentimentalmente miseráveis, azar o deles! Não cabe a você solucionar a vida alheia.
Ansiar por um momento que nunca se repetirá é apenas o outro lado de ansiar por um momento que passou pra sempre. O passado só é lindo porque já foi. Não adianta tentar reproduzir as cores dele no presente porque o tom nunca será o mesmo. Nem você. Nem o outro. Nem o que os cerca. Esse presente (re)fantasiado, por melhor que seja, nunca se igualará às suas expectativas ou lembranças. E acabará, fatalmente, em decepção.
Quer saber? Levante a âncora. Porque quem anda olhando pra trás acaba tropeçando - e, pior, perdendo toda a paisagem.

LP
O envolvimento aconteceu por um erro absolutamente vulgar: o desejo de fazer com que tudo saia como queremos, vá pra onde guiamos. "O que você pensa possuir é o que te possui." Frase vaga, é certo, mas não menos realista por isso. Não há nada de errado com o óbvio - só é penoso vê-lo, mas, cedo ou tarde, paramos de tentar encaixar o redondo no oval. Seja por inteligência ou por cansaço.
Errar é um porre. O maior deles, talvez. Mas é uma das únicas maneiras pra aprender, de vez, que não se deve enfiar o dedo na tomada, misturar destilados com fermentados, nem trair sem esperar que mudanças aconteçam, porque acontecem, você admitindo ou não. Alguns têm a sorte de o trem não descarrilar por causa de um capricho idiota (paixão temporária, imaturidade, chame como quiser). Outros, menos afortunados, vão parar em estações completamente diferentes, longe de tudo e bem pertinho do lugar para onde eles próprios têm vontade de se mandar quando notam a besteira feita, quando a nova paisagem perde a "magia". Eu cheguei, apesar dos problemas no percurso, ao lugar que sonhei. E daqui não pretendo sair, por mais excitante que pareça a cidade vizinha, porque existe algo nela que sou incapaz de mudar: lá, eu nunca estarei em casa.
"Nunca me contentei com nada. De certa forma, a constante vontade de tudo era motivo de orgulho - me tornava especial, inquietante. Até o instante em que vi que algumas coisas simplesmente não valem a pena.
Não por serem pecaminosas nem por pertencerem ao terreno minado da moralidade.
Nem sequer se relacionam com consciência ou motivação menos racional.
Nem por serem tristes ou cômicas.
Não é isso.
Apenas, essas coisas são grandes e atraentes pastéis recheados de vento. 'Como vai você?' oferecido em esquinas barulhentas.
Não sei quantas vezes errei por achar que esperar era estupidez. Paciência confundida com covardia. Ação era o que importava - e eu sempre conseguia, no final, o prêmio pela empreitada. Mesmo não fazendo idéia de sua utilidade.
E por isso joguei pessoas no lixo.
Traí.
Menti.
E mesmo assim agradecia aos céus por ser tão espontânea, passional. Hoje, agradeço por ter aprendido que rogar atenção a quem não se importa não vale a pena.
Ou pedir amor.
Exigir amizade.
Tomar porre de pinga ruim.
Discutir com ignorantes.
Paciência é a maior virtude, agora sei. Ainda bem que a tive para perceber que seu lugar é mesmo do outro lado da rua, com outras pessoas, falando sobre assuntos que em nada me interessam (por mais que eu tenha me esforçado). O bom senso me devolveu a paz que quase perdi por recear aceitar que minha felicidade está na calma e não na sua cama.
Sua infância mal ultrapassada.
Seu armário trancado demais.
A falta de palavras.
O excesso de ausência. Tudo minou até a minha incrível capacidade de persistir: não dá pra apostar o futuro numa mesa em que o maior prêmio é um orgasmo e um beijo na testa.
Errar é um porre. O maior deles, talvez. Mas é uma das únicas maneiras pra aprender, de vez, que não se deve enfiar o dedo na tomada, misturar destilados com fermentados, nem trair sem esperar que mudanças aconteçam, porque acontecem, você admitindo ou não. Alguns têm a sorte de o trem não descarrilar por causa de um capricho idiota (paixão temporária, imaturidade, chame como quiser). Outros, menos afortunados, vão parar em estações completamente diferentes, longe de tudo e bem pertinho do lugar para onde eles próprios têm vontade de se mandar quando notam a besteira feita, quando a nova paisagem perde a "magia". Eu cheguei, apesar dos problemas no percurso, ao lugar que sonhei. E daqui não pretendo sair, por mais excitante que pareça a cidade vizinha, porque existe algo nela que sou incapaz de mudar: lá, eu nunca estarei em casa.
"Nunca me contentei com nada. De certa forma, a constante vontade de tudo era motivo de orgulho - me tornava especial, inquietante. Até o instante em que vi que algumas coisas simplesmente não valem a pena.
Não por serem pecaminosas nem por pertencerem ao terreno minado da moralidade.
Nem sequer se relacionam com consciência ou motivação menos racional.
Nem por serem tristes ou cômicas.
Não é isso.
Apenas, essas coisas são grandes e atraentes pastéis recheados de vento. 'Como vai você?' oferecido em esquinas barulhentas.
Não sei quantas vezes errei por achar que esperar era estupidez. Paciência confundida com covardia. Ação era o que importava - e eu sempre conseguia, no final, o prêmio pela empreitada. Mesmo não fazendo idéia de sua utilidade.
E por isso joguei pessoas no lixo.
Traí.
Menti.
E mesmo assim agradecia aos céus por ser tão espontânea, passional. Hoje, agradeço por ter aprendido que rogar atenção a quem não se importa não vale a pena.
Ou pedir amor.
Exigir amizade.
Tomar porre de pinga ruim.
Discutir com ignorantes.
Paciência é a maior virtude, agora sei. Ainda bem que a tive para perceber que seu lugar é mesmo do outro lado da rua, com outras pessoas, falando sobre assuntos que em nada me interessam (por mais que eu tenha me esforçado). O bom senso me devolveu a paz que quase perdi por recear aceitar que minha felicidade está na calma e não na sua cama.
Sua infância mal ultrapassada.
Seu armário trancado demais.
A falta de palavras.
O excesso de ausência. Tudo minou até a minha incrível capacidade de persistir: não dá pra apostar o futuro numa mesa em que o maior prêmio é um orgasmo e um beijo na testa.
Na adolescência as garotas têm uma vaga idéia sobre o que é essencial num homem: que ele se interesse por ela. Daí passa um tempo e, lá pelos vinte, a opinião muda: o essencial é que ele não seja galinha. E beirando os trinta, depois de alguns começos, términos e uma coleção de histórias bem e mal contadas, chegamos a conclusão final: caráter, isso sim é essencial num homem.
Mas caráter é coisa complicada de se ver. Quem dera fosse tão notório como beleza ou óbvio como a inteligência, mas é sutil, mora em algum canto de acesso difícil e só sai de lá em circunstância adversas. Ou extremas. Finais de relacionamento, por exemplo. Porque é só neles que conhecemos o caráter de um homem. Ou a ausência dele.
É incrível como podemos ser felizes (na ignorância, mas felizes) até o instante em que as alianças são retiradas dos dedos e as malas, dos armários. É aí que a vida como ela é começa a acontecer: maridos amorosos se transformam em seres amargurados que fazem tudo para que suas inúmeras transas pós-separação cheguem, em detalhes, aos ouvidos ainda entristecidos da ex. Homens devotados despem a fantasia de cordeiro e lançam aos ventos "verdades" sobre a mulher que, até ontem, era maravilhosa: ela não gosta de sexo, odeia a mãe dele e é de uma carência pegajosa. Mas o pior tipo é outro, ainda mais nocivo e ainda menos evidente: o homem-rela-rela.
O homem-rela-rela é popular, divertido, bacana, apaixonado e, aos olhos da platéia (e da esposa também), o companheiro perfeito: ele a elogia em público e sua conduta com as fêmeas alheias jamais foge do "corretíssima". Mas, um dia, ela resolve se separar dele. Abismada, incrédula, a horda entoa hinos de "Tadinho, ele não merecia". Ela passa a se sentir a vaca profana que deu um pé na bunda na reencarnação de São Judas Tadeu e, de ex-mulher, vira a atual piranha que faz sofrer o pobre moço. Depois de eras de terapia, recuperada do trauma de ter agido de forma tão vil, num dia qualquer de fevereiro, vinda do nada, ela descobre a verdade. E a verdade é que o homem-rela-rela é venenoso. E a contaminou.
Eu fui casada com um homem-rela-rela. Ele era bem parecido com a rã de mesmo nome: bonitinho, simpático e aparentemente inofensivo mas, como ela, por detrás da aparência meiga, guardava um veneno mortal que quase me secou por dentro: ele se fazia de vítima. Tá, eu o traí. Ele descobriu. Me perdoou. Mas acabamos rompendo e eu carregando o fardo pesado de ser a algoz, a maldita, a injusta. E então me dei conta de que no meu último semestre de casamento meu marido só continuou comigo porque tomou um corno da amante. Mas ele preferia se manter na posição de tadinho para me punir. Ele preferiu macular nossos 3 anos de convivência para me massacrar.
Pois hoje, mais do que nunca, eu sei: caráter é essencial num homem. E coragem de arcar com o que se faz é essencial pra qualquer um.
Mas caráter é coisa complicada de se ver. Quem dera fosse tão notório como beleza ou óbvio como a inteligência, mas é sutil, mora em algum canto de acesso difícil e só sai de lá em circunstância adversas. Ou extremas. Finais de relacionamento, por exemplo. Porque é só neles que conhecemos o caráter de um homem. Ou a ausência dele.
É incrível como podemos ser felizes (na ignorância, mas felizes) até o instante em que as alianças são retiradas dos dedos e as malas, dos armários. É aí que a vida como ela é começa a acontecer: maridos amorosos se transformam em seres amargurados que fazem tudo para que suas inúmeras transas pós-separação cheguem, em detalhes, aos ouvidos ainda entristecidos da ex. Homens devotados despem a fantasia de cordeiro e lançam aos ventos "verdades" sobre a mulher que, até ontem, era maravilhosa: ela não gosta de sexo, odeia a mãe dele e é de uma carência pegajosa. Mas o pior tipo é outro, ainda mais nocivo e ainda menos evidente: o homem-rela-rela.
O homem-rela-rela é popular, divertido, bacana, apaixonado e, aos olhos da platéia (e da esposa também), o companheiro perfeito: ele a elogia em público e sua conduta com as fêmeas alheias jamais foge do "corretíssima". Mas, um dia, ela resolve se separar dele. Abismada, incrédula, a horda entoa hinos de "Tadinho, ele não merecia". Ela passa a se sentir a vaca profana que deu um pé na bunda na reencarnação de São Judas Tadeu e, de ex-mulher, vira a atual piranha que faz sofrer o pobre moço. Depois de eras de terapia, recuperada do trauma de ter agido de forma tão vil, num dia qualquer de fevereiro, vinda do nada, ela descobre a verdade. E a verdade é que o homem-rela-rela é venenoso. E a contaminou.
Eu fui casada com um homem-rela-rela. Ele era bem parecido com a rã de mesmo nome: bonitinho, simpático e aparentemente inofensivo mas, como ela, por detrás da aparência meiga, guardava um veneno mortal que quase me secou por dentro: ele se fazia de vítima. Tá, eu o traí. Ele descobriu. Me perdoou. Mas acabamos rompendo e eu carregando o fardo pesado de ser a algoz, a maldita, a injusta. E então me dei conta de que no meu último semestre de casamento meu marido só continuou comigo porque tomou um corno da amante. Mas ele preferia se manter na posição de tadinho para me punir. Ele preferiu macular nossos 3 anos de convivência para me massacrar.
Pois hoje, mais do que nunca, eu sei: caráter é essencial num homem. E coragem de arcar com o que se faz é essencial pra qualquer um.
EU NÃO CONTO...
Todo mundo tem segredos. Ou pelos menos as pessoas interessantes. Nada mais chato que alguém mapeado, retilíneo, constante, bonzinho, doce, amável. Para mim, só vale a pena quem tem um cadáver no armário, uma sombra perigosa, um poço fundo. Pessoas simplórias são como muitos dias de sol seguidos: agradáveis e infinitamente entediantes.
É a falta de obviedade desperta a curiosidade. Não é à toa que os mitos nascem da dualidade, da pouca incidência de clareza sobre sua personalidade: ninguém fica embasbacado pela simplicidade do seu Zé da quitanda (no máximo, enternecido). Somos fascinados pelo que não entendemos, amamos o desconhecido—por isso mergulha-se à noite, escala-se o Himalaia, come-se fora de casa, trai-se. Por isso Jennifer Aniston é apenas uma menina doce enquanto Angelina Jolie, uma semi-deusa conturbada. Por isso os vilões são mais tesudos que os mocinhos: é só quando ultrapassamos a barreira do familiar, do seguro, que nos tornamos verdadeiramente pessoas. Menos ingênuas, é certo, mas completas.
Ter segredos é viver intensamente, é a prova de que a realidade é muito mais do que nossos forçados sorrisos de bom dia, o escritório claustrofóbico, o saldo negativo. Ter segredos é ter coragem de arcar com o peso de ser único. Porque quem não se arrisca, não faz besteira, não vive: apenas gasta o tempo que deveria ser aproveitado apaixonadamente. Apenas caminha sobre os dias rumo à morte.
Todo mundo tem segredos. Ou pelos menos as pessoas interessantes. Nada mais chato que alguém mapeado, retilíneo, constante, bonzinho, doce, amável. Para mim, só vale a pena quem tem um cadáver no armário, uma sombra perigosa, um poço fundo. Pessoas simplórias são como muitos dias de sol seguidos: agradáveis e infinitamente entediantes.É a falta de obviedade desperta a curiosidade. Não é à toa que os mitos nascem da dualidade, da pouca incidência de clareza sobre sua personalidade: ninguém fica embasbacado pela simplicidade do seu Zé da quitanda (no máximo, enternecido). Somos fascinados pelo que não entendemos, amamos o desconhecido—por isso mergulha-se à noite, escala-se o Himalaia, come-se fora de casa, trai-se. Por isso Jennifer Aniston é apenas uma menina doce enquanto Angelina Jolie, uma semi-deusa conturbada. Por isso os vilões são mais tesudos que os mocinhos: é só quando ultrapassamos a barreira do familiar, do seguro, que nos tornamos verdadeiramente pessoas. Menos ingênuas, é certo, mas completas.
Ter segredos é viver intensamente, é a prova de que a realidade é muito mais do que nossos forçados sorrisos de bom dia, o escritório claustrofóbico, o saldo negativo. Ter segredos é ter coragem de arcar com o peso de ser único. Porque quem não se arrisca, não faz besteira, não vive: apenas gasta o tempo que deveria ser aproveitado apaixonadamente. Apenas caminha sobre os dias rumo à morte.
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